A verdade em zonas cinzentas: o Mapa de Movimentos Interiores de Diogo Paiva

 Não será grande novidade dizer que as pequenas editoras são o garante de uma diversidade cultural e estética que, na sua ausência, o nosso meio literário dificilmente teria. Mas quero destacar aqui um outro aspeto no qual as pequenas editoras, como é o caso das Edições Cutelo, são exemplares e que contribui de forma significativa para a criação de um contexto literário mais saudável e diverso. 

Ponderar o catálogo de trinta livros que as Edições Cutelo lançaram até ao momento, mostra-nos uma editora que cultiva uma relação de proximidade e atenção com as várias dimensões que implicam a feitura de um livro. Há nitidamente um trabalho autoral que não se esgota nos seus autores, mas que eleva e destaca também o trabalho de tradução, paginação, design e ilustração. Esta atenção cuidada e detalhada ao trabalho de edição permite transformar em força aquilo que é uma das dificuldades mais transversais nos pequenos projetos editoriais, a limitação dos meios. É meritório e, mais que isso, notável quando um projeto editorial enfrenta de forma direta e desempoeirada os problemas e as complexidades de editar livros na conjuntura precária em que a maioria destas editoras o faz, não utilizando isso como justificação, mas sim como argumento de resistência e de criatividade.

A simplicidade de apresentação e o minimalismo gráfico que perpassam o catálogo da Cutelo, aliados a uma cuidadosa curadoria das suas escolhas, traduzem bem um conjunto coeso de obras que não se faz por acrescento, mas que se anima num diálogo interno, algo que permite alicerçar aquele que é o maior elogio que se pode fazer a um projeto editorial desta natureza e que, não poucas vezes, importa até mais que a sua qualidade, e que é o ter uma identidade. A Cutelo, a despeito da sua ainda breve história, tem-na.

Mapa de Movimentos Interiores é um livro de contos, o segundo de Diogo Paiva na Cutelo, depois se estrear nesta editora com o livro de poesia Provas Irrefutáveis da Minha Inferioridade Mental (2023). Não é também a estreia deste autor no género narrativo, depois de As Flores Têm o Perfume que a Terra lhes Dá, romance que editou em 2019 na Antítese. A atenção dada nas Edições Cutelo à narrativa de menor fôlego – chamemos-lhe assim sem qualquer desdém pelo género – é um dos aspetos que mais se destaca nas obras por si editadas, com autores tão interessantes como Sherwood Anderson, Larry Brown ou Scott McClanahan. Embora com as nuances estilísticas específicas que os individualizam, sente-se a influência da literatura e dos ambientes do gótico sulista nas obras de Brown e McClanahan. E se esta conexão é menos evidente no caso de Sherwood Anderson, não deixa de ser verdade que estes três autores ocupam espaços comuns, cheios de pequenas cidades decadentes, habitadas por personagens de classe trabalhadora, muitas vezes com detalhes excêntricos ou mesmo grotescos. 

Com as devidas diferenças – e grandes distâncias geográficas – Mapa de Movimentos Interiores consegue habitar os mesmos espaços, como uma originalidade e uma imaginação que não o limitam a uma mera imitação ou adaptação à nossa realidade deste género. A este propósito leia-se, por exemplo, Betão, o conto que abre este livro, ou A Tirania do Auxílio. Neste último, um grupo de crianças é arrastado por uma professora voluntariosa para uma missão pouco ponderada, mostrando como, na futilidade das ações, não é o diabo que mora nos detalhes, mas sim nós. E, quando assim acontece, o diabo muda-se de armas e bagagens para se instalar em sentimentos tão insuspeitos como a boa vontade e a compaixão. Inicialmente “apavonados da [sua] verdade” o grupo é surpreendido pelo “vislumbre de uma outra verdade”, numa sensação de amontoado constrangimento, que o autor mostra não apenas no que conta, mas forma detalhada como vai construindo um ambiente que cerca e esmaga os protagonistas: “seguimos atrás de um rapaz que nos levava a uma tenda, à frente da qual um braseiro salivava de fumo à vista de uma travessa onde as moscas gulosas segregavam enzimas na carne vermelha, quase tensa”.

Mas o grande destaque deste conjunto de contos é De todo o vosso coração. Partindo de um nome, “a Puta”, este conto é como que um torcer e retorcer daquela pergunta que Shakespeare põe nos lábios de Julieta: “O que há num nome?”. E esse nome, que primeiro surge em toda a sua crua aspereza, vai-se tornando ambíguo, no enfeixe de memórias fragmentadas e contraditórias dos personagens, em que é a própria ideia de ficção que se torna elusiva. É um conto que opera em pleno numa zona cinzenta, em que as recordações de cada personagem sugerem peças que não encaixam perfeitamente, mas não pela falibilidade da memória ou pela sua subjetividade, mas pela inconfessável colisão entre os desejos e as frustrações, porque, afinal de contas, é o que de mais aproximado podemos ter como resposta à pergunta sobre o que há naquele nome. A resposta, assim, coloca-se numa dimensão de verdade que não é não objetiva e única, mas é, antes, verdadeira pela força da sua própria ambivalência.

Numa das primeiras recensões a Catcher in the Rye, Clifton Fadiman escreveu que, com Holden Caufield, Salinger logrou um dos mais raros milagres da ficção, a criação de um ser humano a partir de tinta, papel e imaginação. Num conto que, reduzido ao seu osso, é uma história de amigos que, entre copos e deceções, tentam rememorar uma mulher do seu passado, a construção narrativa de Diogo Paiva alcança outro raro feito, o da criação de uma situação humana, feita do mesmo material. Poucos leitores não encontrarão uma referência familiar nas traseiras daquele pavilhão de ginástica ou no temor das pranchas mais altas nas piscinas de verão. Mas o talento do escritor não está aqui, o que pouco mais seria que abusar dos privilégios da empatia do leitor. O que torna esta história verdadeiramente familiar é o seu processo, a sua construção, a capacidade de definir a partir do estilo uma ideia muito clara: que se o homem é o único animal que cora – ou que precisa de –, como escreveu Mark Twain, a forma mais implacável de o fazermos é recordar o que fomos.


Publicado originalmente aqui


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