Antes de morrer em 1896, o escritor Edmond de Goncourt deixou o seguinte em testamento: “A minha vontade é que (…) os objetos de arte que fizeram a felicidade da minha vida não sejam friamente sepultados num museu (…), e peço que sejam todos leiloados e espalhados, para que o prazer que tive em adquirir cada um deles seja dado de novo, para cada um deles, a um herdeiro do meu gosto”.
Partindo deste curioso testamento, Dario Gamboni distingue dois tipos de impulso do colecionador, os quais, no fundo, correspondem a duas formas diametralmente opostas de deixar um legado. De um lado, o exemplo de Goncourt, em que o legado do colecionador não é tanto a coleção, mas o colecionar, o prazer do processo, o voltar a permitir a outros a excitação que se sentiu na compra e na acumulação. Do outro lado, o colecionador para quem a dispersão da sua coleção seria uma tragédia e que, por isso, decide entregar as suas obras a um museu ou, até, criar um para as mostrar. Armando Martins, o colecionador que dá nome à coleção e ao MACAM, pertence a este segundo grupo. E a sua coleção, que sustenta este novo museu de arte contemporânea de Lisboa, é uma excelente surpresa.
A Coleção Armando Martins apenas se havia apresentada publicamente uma vez, no contexto do 15.º aniversário do Museu de Arte Contemporânea de Elvas. E mesmo aí fê-lo de forma bastante discreta, com cerca de uma vintena de obras de arte, numa mostra que pouca ou nenhuma pista dava sobre a dimensão da coleção e que em quase nada se distinguia das de outros colecionadores portugueses que se apresentavam no mesmo evento.
Merece destaque, por isso, a forma como esta coleção e este museu foram sendo construídos, num processo a que se podem dar diversos adjetivos e motivos, mas que revela claramente paciência e disciplina. Numa coleção que se começou a constituir nos anos setenta e que há muito tinha a ambição de dar lugar a um museu, é notável que se tenha esperado o tempo que se esperou e, mais ainda, que não se tenha desperdiçado em pequenas mostras ao longo dos anos o efeito de surpresa que a coleção acabou por produzir.
Mas regressemos ao testamento de Goncourt e aos receios deste escritor. O museu de um colecionador privado pode mesmo ser a fria sepultura da sua coleção. Muitas vezes estes projetos correm o risco de funcionar mais como extensões do ego do colecionador, personificando as suas narrativas pessoais e culminando na sua mitificação, mesmo com coleções de grande qualidade e abrangência. O caminho para não cavar esta sepultura começa, primeiro que tudo, na criação do museu como uma verdadeira instituição e na constituição de uma equipa adequada para dar à coleção uma dimensão museológica, capaz de mostrar algo mais que a mera soma das suas partes. É este um aspeto sempre elogiado na teoria, mas tantas vezes terceirizado ou, até, ignorado na prática pelas gestões dos museus e espaços de arte contemporânea, tanto privados como públicos. Também aqui o MACAM se distingue positivamente.
Se a criação de um museu do colecionador é uma opção pelo conjunto, é necessário saber aproveitar, como refere Dario Gamboni, as “forças centrípetas”, a arte de reunir e mostrar as coisas em conjunto, a criação de um forte sentido de identidade e coesão que saiba ser a personalidade e o gosto do colecionador, mas que também saiba ultrapassá-los ou reconfigurá-los. São estes os aspetos que moldam a identidade deste tipo de museu e a sua relevância no panorama cultural. A exposição permanente e as duas exposições temporárias que inauguraram o MACAM são um bom exemplo dessa arte de mostrar as coisas em conjunto e são também o testemunho de que se investiu na coleção, no espaço, mas, igualmente, na criação de uma boa equipa curatorial e de produção.
Intitulada Uma coleção a dois tempos, a exposição permanente divide-se por duas galerias. A primeira parte, que corresponde à Galeria 1 do museu, apresenta-nos a arte portuguesa de finais do século XIX até à segunda metade do século XX, numa narrativa cronológica e didática. Ainda que o faça de forma mais tradicional, esta mostra dá a conhecer, como nenhum outro museu em Lisboa neste momento, este período tão dinâmico e transformador da nossa história da arte, com obras de Almada Negreiros, Amadeu de Souza-Cardoso, Sarah Afonso, Vieira da Silva, René Bértholo, Paula Rego, Álvaro Lapa ou Lourdes Castro, para destacar apenas alguns de uma belíssima amostra deste período da nossa arte. A segunda parte da exposição abandona a perspetiva cronológica, centrando-se em núcleos temáticos com obras de finais do século XX e do século XXI, procurando também revelar o momento e a forma como a coleção começou a incluir, também, arte internacional e outros formatos, como o vídeo, a fotografia e a instalação. Destaco, aqui, os núcleos “Paisagem-arquitetura” e “A memória enquanto imagem”, onde estão algumas das mais interessantes obras desta parte da exposição permanente, como as fotografias de Thomas Ruff, Sabine Hornig ou Alexandra Ranner, o vídeo da dupla Angela Detanico e Rafael Lain ou as pinturas de Michael Bieberstein ou Rosangela Rennó.
Se a coleção foi uma boa surpresa, a exposição permanente é, nomeadamente na sua primeira parte, um excelente do bom aproveitamento das forças centrípetas de que Gamboni fala. Por tudo isto, quando o MAC/CCB ganha uma verdadeira dimensão internacional com a sua nova exposição permanente, o MACAM vem preencher uma lacuna que há algum tempo se sentia em Lisboa e que se traduzia na ausência de uma exposição permanente capaz de mostrar, através de obras de grande qualidade e de forma educativa, os percursos da arte portuguesa entre o naturalismo e a atualidade. E que tenha sido um museu integralmente privado a fazê-lo, deve, no mínimo, servir-nos de exemplo.
Sem comentários:
Enviar um comentário