Jogo feito... nada mais




The game looks easy that’s why it sells

Elliott Smith


A roleta, na sua composição atual, teve origem no século XVIII em França, juntando ou adaptando outros jogos de azar anteriores. Comparado com os demais brinquedos de Casino, a roleta é o mais descomplicado, tirando, claro, as slot machines, que até uma galinha amestrada conseguiria manusear. A roleta, mesmo quando envolve algum nível de estratégia, é só um bocadinho mais complicada que as máquinas, e quando se joga aleatoriamente, então, vai dar exatamente ao mesmo que puxar uma alavanca ou carregar num botão. 

O objetivo do jogo é, também, simples: acertar em que casa vai parar a bola. O número de casas disponíveis varia conforme o tipo de roleta de que estivermos a falar. Na versão europeia, ou de zero único, há trinta e sete casas, ou seja, trinta e sete números do 0 ao 36. Na versão americana, ou de duplo zero, há mais uma casa, que corresponde exatamente ao duplo zero. No Casino de Lisboa, tanto quanto pude ver, não há destas. Com exceção do zero, de cor verde, as restantes casas alternam entre o vermelho e o preto com esta sequência na roleta: 32-15-19-4-21-2-25-17-34-6-27-13-36-11-30-8-23-10-5-24-16-33-1-20-14-31-9-22-18-29-7-28-12-35-3-26. Na mesa, o esquema é o seguinte:


0

3

6

9

12

15

18

21

24

27

20

33

36

2 por 1

2

5

8

11

14

17

20

23

26

29

32

35

2 por 1

1

4

7

10

13

16

19

22

25

28

31

34

2 por 1

1.ª dúzia

2.ª dúzia

3.ª dúzia

1 a 18

Par

Vermelho

Preto

Impar

19 a 36


Esta estruturação da mesa permite compor diversos tipos de apostas, as quais, na hipótese mais ampla, podem ser de dois tipos: as internas e as externas. As apostas internas são as que se fazem no interior da mesa, ou seja, quando apostamos num número ou em combinações de números. As apostas externas fazem-se fora da mesa, quando apostamos em chances: par ou ímpar, vermelho ou preto, metade menor ou metade maior, dúzias e colunas. 

Nas apostas internas, a mais simples e elementar, mas também a mais lucrativa caso se acerte, é o pleno: a ficha colocada em cima de um único número e que rende trinta e cinco vezes o valor apostado quando esse número sai. O pleno é a aposta preferida dos maçaricos temerários. Isto não quer dizer que os jogadores a sério não joguem nos plenos, porque o fazem, mas chegar a uma mesa e a cada sessão fazer apenas uma aposta com fichas de cinco ou dez euros num único número é coisa de principiante. Os maçaricos cobardolas jogam nas chances de duas alternativas e nunca valores muito altos. É também esta a forma como o método ensina a jogar, com a diferença que aí há uma estratégia a longo prazo e, claro, a lógica das progressões no valor das apostas. Já nos maçaricos cobardolas é só toca-e-foge e estratégia nenhuma. 

As restantes apostas internas são o cavalo (ficha colocada na linha divisória entre dois números – por exemplo, entre o 5 e o 8 –, sendo que caso saia um desses números rende dezassete vezes o valor apostado), a rua (a ficha colocada na linha lateral abrangendo 3 números dessa coluna horizontal – por exemplo, o 19, o 20 e o 21 –, multiplicando onze vezes o valor da aposta), o quadro (aposta no centro de quatro números – por exemplo, entre o 14, o 15, o 17 e o 18 –, que rende oito vezes o valor da ficha) e a linha (ficha colocada na lateral para abranger duas linhas adjacentes, ou seja, duas ruas, que rende cinco vezes o valor). As apostas externas ou rendem o valor apostado, no caso das alternativas, como o vermelho ou preto, ou duas vezes o valor apostado, no caso das triplas, ou seja, apostar numa das três dúzias. 

As apostas na roleta funcionam por rondas, as quais começam e terminam com o pagamento pelo dealer. Saldadas as contas tem início uma nova ronda. A partir deste momento é possível fazer novas apostas. Algum tempo depois – não há uma regra e tudo dependerá do número de apostas e de jogadores – o dealer lança a bola. Este gesto não determina o fim das apostas, que se podem alongar mais uns instantes. É a arbitrariedade do dealer, colada à perda de ímpeto da bola, que comanda o último instante de jogo. “Jogo feito… nada mais” – é assim que o anunciam. Qualquer aposta colocada após este momento, só vale se for confirmada e aceite pelo dealer e supervisor. 

A roleta é rápida e simples. Ainda que longe do ritmo frenético das slot machines, uma jogada raramente dura mais que um par de minutos e as regras do jogo são tão evidentes que nos desobrigam de qualquer estratégia ou ponderação. Pode-se entrar num Casino, desconhecendo até o que é que por ali se coze, ir para uma mesa de roleta e ao fim de duas jogadas já sabe quase o mesmo que um jogador regular. Mas nem sequer é isto o que mais ludibria na roleta. O verdadeiro truque da roleta é a sedução do movimento, composto não só pela bruxaria da bola às voltas na estrutura circular, mas por toda a liturgia inerente a cada jogada e sacramentalmente cumprida pelo dealer e intuída pelos jogadores. Uma performance desenhada muito menos para maquinar um número final e muito mais para descentrar a atenção dos jogadores. 

A ilusão, contudo, é só parte da história. Como é que se mantém essa ilusão viva? Simples: objetificando a sorte e expulsando o dinheiro da equação. Os dados, o patriarcado do jogo, são exemplo disto, como o são a bola da roleta, as máquinas e as cartas. É a concretização da sorte num objeto que dá ao jogador a ilusão de poder controlar os acontecimentos. O outro grande truque dos Casinos, o mais perfeito e eficaz, é não haver dinheiro em jogo, mas sim fichas. Representado nas fichas, o dinheiro deixa de recomendar qualquer precaução, perde toda a sua dimensão. Quando transformado num maciço redondo de plástico duro, por mais números que tenha, por maior e mais brilhante que seja, deixa de inspirar qualquer terror. Já tinha lido sobre isto na New York Review of Books, num ensaio do Al Alvarez sobre Casinos, mas na altura pareceu-me um manifesto exagero. Depois de uma semana no Casino de Lisboa, só posso concordar com o jogador de que o Al Alvarez fala. O homem que inventou o jogo era muito inteligente, mas o que inventou as fichas era um génio. Há uma displicência gestual nítida. No calor das rondas, os jogadores não vêm as fichas como dinheiro. São apenas o marcar de um território e uma afirmação sobre o quão longe estão dispostos a ir para fincar o pé nesse lugar. Empilhar fichas é apenas isto, estou aqui, este é o meu território e esta altura representa o quão estou interessado em defendê-lo. É assim que se mantém uma ilusão. E, quando o dinheiro é já ele próprio uma ficção, as fichas são pura fantasia.


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