A propósito de caveiras: quatro artistas e uma jovem curadora na galeria Francisco Fino

É importante destacar quando uma galeria trabalha com curadores nas suas exposições. E mais importante ainda quando o fazem com jovens curadores, como em Holbein Syndrome, a mais recente exposição da Galeria Francisco Fino, com curadoria de Francisca Portugal e com obras de Joana Coelho, Inês Mendes Leal, Maria Máximo e Inês Raposo.

É óbvio que as galerias desempenham um papel importante em qualquer ecossistema da arte contemporânea. Mas em Portugal talvez seja interessante dar atenção a algumas das particularidades desta obviedade. 

Começo, para isso, com outra obviedade: as galerias de arte são espaços comerciais muito particulares, que graças à sua dimensão cultural têm o potencial de criar algumas dúvidas na definição da fronteira entre interesse económico privado e serviço público. É verdade que partilham esta característica com outros espaços comerciais, como as livrarias, as lojas de música ou as salas de espetáculos, mas talvez só estas últimas tenham um impacto semelhante ao das galerias de arte na promoção dos artistas e na criação de públicos. 

Este aspeto é fundamental para perceber que se em todos os ecossistemas de arte contemporânea as galerias são importantes, o peso que elas têm na promoção dos artistas nacionais e na criação de públicos não é igual. E em Portugal as galerias de arte têm tido um papel muito importante na promoção dos artistas nacionais, o que é natural, mas também na criação de novos públicos. Se é nas instituições e nos espaços de arte contemporânea que a criação de públicos deve ser a missão capital, não se deve menosprezar o papel que as nossas galerias, mesmo com algumas limitações, têm tido na criação do interesse pela arte contemporânea.

É exatamente por terem esse papel que é de saudar quando as galerias escolhem trabalhar com curadores, e de incentivar que estas colaborações aconteçam, criando oportunidades de trabalho, especialmente para os mais jovens, e, ao mesmo tempo, mostrando as obras num contexto e de uma forma que melhor promovem esse objetivo de formação de públicos. 

Holbein Syndrome é a primeira curadoria de Francisca Portugal para uma galeria comercial em Portugal, depois do seu trabalho em espaços tão diferentes como a Duplex Air, a Arbag, a Fundação Eugénio de Almeida, o Museu de Arte Contemporânea de Elvas ou, mais recentemente, a Fundação Carmona e Costa.

O título da exposição remete para a pintura Os Embaixadores, de Hans Holbein, em que uma caveira anamórfica questiona e joga com os restantes elementos retratados, mas também com a perceção de quem vê a obra e, até, com o ponto de vista a partir do qual ela é observada. Na folha de sala, a curadora coloca a seguinte questão: “porque não pode ser a caveira de Holbein o ponto mais absoluto da realidade e tudo o resto uma tentativa de aproximação?”.  

Pode ver-se neste questionamento uma leitura diametralmente oposta às palavras de Jean de La Bruyère em Les Caractères, quando este autor refere que o homem é um mentiroso nato, porque a verdade, “simples e ingénua”, vem “pronta do céu” e o homem apenas ama a sua própria obra, “ilusória e ornamental”. Contra esta ideia, a narrativa tecida por Francisca Portugal vem reclamar, como Oscar Wilde em The Decay of Lying – também citado na folha de sala –, a importância central de ficcionar, pode dizer-se mesmo de mentir, de “encantar, deliciar e dar prazer” contando “belas coisas falsas”. Ammit’s Fugitive, de Maria Máximo, é disto um bom exemplo. Numa das obras mais interessantes desta exposição, a artista parodia até à inutilidade o cavalo de Tróia, que surge aqui numa absoluta transparência, desprezando qualquer ocultação e transformando o engodo num outro engodo. O mesmo se pode dizer de Driving a pony after Velásquez, de Inês Raposo, que, com humor, recria El príncipe Baltasar Carlos a caballo, de Velásquez, adaptando-a ao seu contexto e ao seu imaginário.


Com diferentes efeitos, as obras que fazem parte desta exposição vão construindo este ambiente em que o artifício e a ilusão, ou talvez melhor, a subversão, colocam a possibilidade de redimir ou perspetivar a realidade, como acontece em Backdoor key, de Inês Raposo, que hiperboliza a escala de uma chave, ou em Forecast, de Inês Mendes Leal, uma instalação escultórica de som, que recria uma tempestade no interior de uma sala.

Merece especial destaque, contudo, um dos contributos de Joana Coelho para esta exposição. As três peças intituladas Treatise – ou uma peça em três partes –, destacam-se visualmente no panorama da sala, expandindo em escala e em teatralidade algumas das características que marcam o trabalho de desenho desta artista.

Ao segurar a caveira de Yorick, Hamlet recorda a infinita piada e a prodigiosa fantasia do bobo da corte. A caveira de Holbein, perspetivada a partir da forma como a curadoria de Francisca Portugal trabalha as obras destas quatro jovens artistas, é o símbolo de como a prodigiosa fantasia da criação artística pode, talvez, ser o “ponto mais absoluto da realidade”. Aqui a ilusão e o artíficio – a mentira – abandonam a repartição da inverdade. No Direito da Guerra e da Paz, Grócio escreve que não mente quem diz uma coisa falsa julgando-a verdadeira. Não era certamente essa a intenção deste jurista e filósofo do início do século XVII, mas, aos olhos de Holbein Syndrome, talvez Grócio nos tenha dado uma bela definição de arte. 


Publicado originalmente no suplemento Ípsilon, do Jornal Público e disponível em: https://www.publico.pt/2025/02/14/culturaipsilon/critica/proposito-caveiras-quatro-artistas-jovem-curadora-galeria-francisco-fino-2121972


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