This whole city is most certainly a pitiful corpse, while the neighborhood outside the walls of this bar has the distinction of being the withering heart of the deceased. And I am a devoted student of its anatomy—a pathologist, after a fashion, with an eye for necroses that others overlook.
- Thomas Ligotti
Call of Cthulhu, de H. P. Lovecraft, é merecidamente um dos contos mais influentes da literatura de terror do século XX. Nele, graças à junção de uma série de acasos e descobertas acidentais, o protagonista destapa o véu de um horror inimaginável, um monstro terrível e impiedoso há muito adormecido na cidade afundada de R’Lyeh.
É conhecido o detalhe com que este autor descreve a
arquitetura dos espaços que ambientam os seus contos, às vezes até ao limite da
paciência do leitor. Mas, mais que simples vícios ou trejeitos de um escritor
palavroso, a veemência do detalhe é consequente. Este aspeto é evidente na sua tentativa de
reconstrução, mais ficcionada que histórica, de um passado e de uma certa Nova
Inglaterra. E mais evidente ainda o é quando se abandona essas paisagens e se
leem as descrições de cidades alienígenas, como R’Lyeh, de geometria bizarra e
não euclidiana. O detalhe destas cidades ciclópicas é o condimento da sensação
de estranheza, opressão e alienação que Lovecraft pretende sugerir. Por isso, a
arquitetura não é apenas um cenário, é um alicerce do horror cósmico, uma
personagem central, que interage com os protagonistas e com o leitor, criando
um desconforto estético versátil, que tanto sussurra o declínio, como amplia o
medo do desconhecido e a insignificância última da humanidade perante um
universo impiedoso e que nos observa com infinito desdém.
Em Dada City, a terceira exposição individual de Inês d’Orey
(Porto, 1977) na Salgadeiras Arte Contemporânea, a arquitetura é também
personagem central, dando continuidade ao trabalho que a artista tem vindo a
desenvolver e em que explora a complexidade dos espaços construídos e da(s)
memória(s) e história(s) que lhes são subjacentes.
A partir do seu olhar sobre a arquitetura da cidade de
Bucareste, e sempre no interior dos edifícios, Inês d’Orey sussurra-nos uma
história que, tal como as ruínas das cidades ciclópicas dos contos de
Lovecraft, é sobre passado e declínio. Percorrer esta exposição permite,
também, pressentir que, além da arquitetura, há outro protagonista que se
manifesta num jogo de ausência e presença. Se os espaços fotografados surgem
sempre inabitados, a presença da figura humana intui-se através de uma sugestão
fantasmagórica.
Há ainda uma outra dimensão sugerida por esta exposição, e
que também se desenha no jogo de ausência e presença, tornando o corpo um
protagonista. Em contraste com a ausência de corpos físicos, há uma certa
abundância de corpo político, recordando agora outro “monstro” famoso, o
Leviatã de Thomas Hobbes.
Na imagem que Abraham Bosse desenhou para o frontispício do
Leviatã, uma das mais reconhecíveis e comentadas figurações do poder político,
vemos um gigante coroado, cujo corpo é composto por centenas de pequenos
homúnculos, que segura uma espada e um báculo, dominando uma majestosa cidade
em que se destacam diversos elementos arquitetónicos que representam a o poder
político e eclesiástico. Um dos papéis mais permanentes da arquitetura,
historicamente, é o desenho de edifícios que representam ou acolhem a autoridade
política. Se estes edifícios tornam possível o exercício do poder político, são
também essenciais para a criação do Estado enquanto entidade que, para existir,
depende da sua visibilidade. A arquitetura é, assim, uma das formas mais
eficazes através das quais o poder político se apresenta perante os seus
cidadãos.
Dada City é, nesta perspetiva, um estudo sobre a história
política de Bucareste, contada a partir de espaços como o Ateneu Romeno, o
Palácio Vama Postei, ou a Sala Omnia, hoje sede do Centro Nacional para a
Dança, mas que durante anos foi um lugar simbólico do poder político durante o
regime de Nicolae Ceausescu. Esta exposição mostra um trabalho fotográfico
sempre consciente das diferentes dimensões e interseções na relação entre
público e privado e entre arquitetura e poder, fruto de uma preparação meticulosa
da artista que se intui nestas fotografias, continuando e ampliando uma
proposta que Inês d’Orey já explorara em Antecâmara (2019), Beograd Concrete
(2022) ou Paisagens Construídas (2024).
Em Space and Power: Politics, War and Architecture Paul
Hirst reflete sobre a interseção entre espaço físico, poder político e
conflito, em que a arquitetura influencia e é influenciada pelo confronto
político, mostrando que o espaço a construir não é apenas um pano de fundo
passivo para a ação política, é parte integrante das dinâmicas de poder. Este
tem sido, também, o foco de uma parte significativa do trabalho de Inês d’Orey,
recordando que, como escreveu Benjamin Disraeli, “uma grande cidade, cuja imagem
perdura na memória do homem, é o símbolo de uma grande ideia”.




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